Experimento I

         Com sete álbuns em seu catálogo, produzidos entre os anos de 1993 e 2007, a banda Radiohead apresenta como os principais temas de suas canções a alienação e a paranóia em relação a um futuro dominado pelos avanços científicos e tecnológicos, exemplificados na manipulação genética e na crescente presença dos computadores em nossas vidas, atmosfera que eles apresentam envolta em um misto de som melódico e explosivo.

            Esta trajetória na discografia da banda nos remete a imagens extraídas de obras clássicas, fábulas futuristas, como 1984 e Admirável Mundo Novo, que tem em comum, (entre elas e a banda), temáticas relacionadas com a dominação do espírito humano: ora pela absorção e recriação total da mente humana, ora pela perda total da individualidade pelo coletivo. Reprimir um elemento subversivo, seja ele liberdade, honestidade, fé ou amor, é fundamental para a manutenção da ordem e do equilíbrio. Ou seja, para a alienação e aniquilação do indivíduo.

          A obra 1984, escrita em 1949, de George Orwell, expressou sua visão sombria e pessimista sobre o controle da vida dos cidadãos por um Estado tirano, a perda da individualidade e da liberdade e um futuro pautado pela desumanização. Enquanto que Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, de 1931 profetizou uma sociedade completamente organizada, sob um sistema científico de castas. Não haveria vontade livre, abolida pelo condicionamento; a servidão seria aceitável devido a doses regulares de felicidade química e ortodoxias e ideologias seriam ministradas em cursos durante o sono.

            Por um lado, em Orwell, regras sócio coercitivas delimitam as necessidades individuais, e por outro, com Huxley, o excesso de satisfação banaliza qualquer necessidade individual perante o coletivo. Um vazio das relações humanas, presentes na sociedade moderna, e que o Radiohead ilustra muito bem em suas letras: a imagem de uma sociedade adormecida; alienada; passivamente comandada por um sistema que reprime; dividida pela tecnologia, mascarada sob o consumo, sem consciência do que procura, submetida a realidade intragável de se ajustar ao que for “normal”.

         O espetáculo de dança Radiodance – Experimento I: Quinze Passos representa a leitura da trajetória de um indivíduo que pulsa ao buscar o encontro com sua individualidade, depois de percorrer os quinze passos básicos de ajustamento social. O personagem, iludido e imerso em sua falsa noção de liberdade, tem um breve vislumbre de consciência sobre si mesmo, e então, o processo de dominação é retomado, e a platéia acompanha a desconstrução daquele indivíduo, que busca uma liberdade, que, talvez por nunca tê-la visto, é incapaz de reconhecê-la. E por isso, vive sempre um movimento de rotina cíclica, de aprisionamento e libertação, sem saber onde quer chegar, fugindo sem sair do lugar.

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